Maria Barjute S. A. Bacha - UFMG
Quando cruzares o Amanhã, a luz, o impossível
Porque de barro e palha tem sido esta viagem
Que faço a sós comigo. Isenta de traçado
Ou de complicada geografia, sem nenhuma bagagem (...)
A expressão poesia pura torna-se motivo de grande polêmica a partir do momento em que o abade Henri Brémond a emprega no discurso que profere na Academia Francesa de Letras, na cidade de Paris, em outubro de 1925.
Na ocasião, o abade tem o propósito de defender o ingresso de Paul Valéry naquela Academia. No entanto, ao apresentar os seus argumentos, o religioso assume posturas contraditórias. Esboça uma concepção de poesia pura distinguindo-a como ideal e, ao mesmo tempo, tece considerações sobre o impuro, sinalizando as impurezas da obra que elogia; ironicamente, acaba condenando o poeta que está sendo homenageado.
Tempos depois, o próprio religioso admite os seus equívocos: fala que seus conhecimentos literários sobre Valéry são limitados e assinala que o discurso proferido em 1925 não tivera a intenção de formular uma teoria poética.
No período em que a polêmica em torno do puro e do impuro ganha maior vigor, Valéry assume certa responsabilidade pela celeuma. Com o intuito de elucidar a origem do problema, informa que, anos antes, escrevera um prefácio para um livro de versos e usara a expressão poesia pura, no sentido de depuração da forma; acrescenta que não poderia prever que suas palavras iriam ganhar maior importância.
Indiferente às intenções do poeta, Brémond coloca em evidência o problema da pureza em poesia. Seu procedimento conceitual supõe o paradoxo, a coexistência do puro e do impuro; este último é identificado com o mundo das aparências ou com aquilo que tem conexão com a realidade circunstancial. Para ele, impura é a poesia voltada para o subjetivo, o desgracioso, o irônico, o detalhe que provoca efeito de real; impura é a poesia fundada em um saber lógico, racional, analítico ou aquele formulado com o propósito de dizer alguma coisa.
Quanto à poesia pura, o abade francês a identifica com o inefável, com o indizível, ou mesmo, com aquilo que falta ser dito. Associada com imagens em movimento, ela é a vibração fugidia, o transitório, o efêmero, o fulgaz; seu poder de encanto é quase imperceptível; sua força de sedução é sutil. Livre dos preceitos da lógica, das exigências da racionalidade, a pureza deixa-se marcar pela dicção do mágico, do metafísico e do religioso. Para Brémond, portanto, o puro tem o sentido de mistério e de segredo indecifrável; distingue-se como algo que está revestido de esplendor. Lembrando um rito, a busca do puro supõe ritmo, exige a ação transformadora do informe em substância viva; o puro revela-se em um instante de luz, é o próprio sopro criador.
O jogo entre o preciso e o exato, o subjetivo e o objetivo, confere ao discurso de Brémond um caráter ambíguo.Suas palavras têm o poder de seduzir o interlocutor chamando-lhe atenção para problemas ligados ao estatuto do poético. Embora apresente argumentos pouco convincentes, uma abordagem que tende ao superficial, o texto do abade transcende as circunstâncias e os limites de seu tempo. Ao oferecer motivos para debates, instigar a disputa sobre palavras mal definidas, conforme nota Henry Decker, o discurso do religioso francês acaba por propiciar o surgimento de reflexões críticas acerca do poético.
A partir da década de 30, na França, surgem diferentes artigos sobre poesia pura. O termo passa a abrigar sentidos diversos e a apontar direções distintas para o trabalho com o poético.Assim, alguns estudiosos elegem a máteria como pretexto para tratarem das questões ligadas aos gêneros; discutem relações entre poesia e prosa, fundo e forma , ou ainda, procedem leituras comparativas entre poesia e música, poesia e filosofia etc.
Antônio Blanch, por exemplo, faz uma síntese da produção poética francesa do século XX, assinalando três grandes tendências de pureza: a expressiva, representada por Reverdy e Jacob; a formal, apregoada por Valéry e Mallarmé; a criadora, defendida por Brémond. Partindo dessa premissa, o ensaista espanhol observa que, no seu país, os autores da geração de 27, como Garcia Lorca, Jorge Guillén, Pedro Salinas entre outros, apresentam obras que tendem a esboçar a atitude criadora evidenciada por Brémond.
No que diz respeito ao Brasil, observa-se que, a priori, a discussão acerca da pureza e da impureza da poesia não constitui objeto de interesse da crítica.
O breve artigo intitulado “Poesia pura”, de Henriqueta Lisboa, publicado no ano de 1955, aparece como uma exceção. Ali, a autora explora o tema, identificando o puro com o orgânico, com o biológico. O caráter inusitado dessa comparação sugere o propósito de atribuir à teoria poética o valor de verdade científica. Nesse sentido, o seu procedimento lembra o tom cientificista do século XIX e, ainda, parece trair as formulações esboçadas por Brémond e outros partidários da poesia pura que não admitem conexão entre o universo do poético e o da lógica racional.
No entanto, as imagens empregadas pela autora têm a propriedade de sinalizar o caráter paradoxal de qualquer movimento em direção ao puro. Em outras palavras, o puro ganha evidência em um meio impuro.
Quanto aos modernistas brasileiros, sabe-se que estão atentos para as manifestações literárias da Europa, mas não participam dos debates voltados para essa questão. No âmbito do poético, porém, figuras como Bandeira e Drummond exibem uma produção que rejeita, de forma explícita, a busca da poesia pura.
Nesse sentido, exploram metáforas ligadas ao sórdido, ao sujo, ao escuro. O singelo é substituído pelo grotesco; o não dito ganha o tom da ironia. O inefável, por sua vez, cede lugar para o beco ou para uma pedra qualquer que teima em ficar no meio do caminho. O metafísico é trocado pelo factual; o místico é dessacralizado e ganha as cores do cotidiano; o poema-notícia é extraído da vida do dia-a-dia. As memórias de Pasárgada e de Itabira evocam histórias pontuadas por lirismo e subjetividade.
A busca do puro na poesia brasileira, assim, não pode ser identificada como uma procura angustiada do nada no coração da linguagem. Os poetas questionam o estatuto da palavra no poema e, seguindo essa tendência, estão os que exploram a linha espiritualista, como: Jorge de Lima, Murilo Mendes, Tasso da Silveira , Augusto Frederico Schimidt, Alceu Amoroso Lima , Cecília Meireles , Hilda Hilst, Adélia Prado entre outros.
No livro de poema intitulado Bagagem (1979), de Adélia Prado, por exemplo, o ato de criação supõe um movimento em direção ao puro. O desejo de atingir um estado anterior ao da existência aparece em “Exausto”; a espera pela possibilidade de surgimento da vida fica evidente em “Ovos de Páscoa” e, uma espécie de síntese do processo criador pode ser detectada na composição intitulada “Antes do nome”.
Ali, a voz poética rejeita o impuro, o referencial, o pragmático, ao declarar que não se importa com a palavra corriqueira. Ao afirmar que sua opção é pela sintaxe, ela sinaliza a intenção de estabelecer ligações com o divino; nesse sentido adverte que quem entende a linguagem entende Deus, ou seja, a poesia aproxima o criador e a criatura . Nos versos seguintes, assinala que em momentos de graça, infreqüentíssimos, pode-se apanhar um peixe vivo com a mão, evidenciando que o estado de pureza da matéria poética é algo raro. Ao associar a expressão palavra com peixe, Adélia Prado evoca a cena bíblica da multiplicação. Sugere, ainda, uma atitude criadora marcada pela idéia do milagre, do mistério. O movimento em direção ao puro revela-se incessante; o êxtase ou o susto diante da conquista ocorre em um instante fulgaz.
A possibilidade de separar a pureza da poesia daquilo que é tido como impuro e vulgar não tem sido, efetivamente, o maior problema ; a busca de um, a rejeição pelo outro constituem, enfim, movimentos em torno do poético. O grande desafio, a utopia maior é saber definir o ato e o lugar da palavra próprios à poesia.
ANDRADE, Carlos Drummond. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1977.
BANDEIRA, Manuel. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar,1974.
BLANCH, Antonio. La poesia pura española- conexiones com la cultura francesa. Madrid: Gredos, 1976.
BRÉMOND, Henri. La poesia pure. Avec un débat sur la poesie pure par Robert de Souza.Tradução de Sérgio Alves Peixoto. Paris: Bernard Grasset, 1926.
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GUILLÉN, Jorge. Lenguaje y poesia. Madrid: Alianza Editorial, 1972.
LISBOA, Henriqueta. Vivência poética. Belo Horizonte: Editora São Vicente, 1979.
PRADO, Adélia. Bagagem. São Paulo: Nova Fronteira, 1979.